Divagações
A música não sai da minha cabeça.
"Meu coração dispara; tropeça, quase para..."
O tempo todo ecoando pelo labirinto de conexões que minha cabeça fez o dia todo. É uma baladinha gostosa do Tiago Iorc, sabe... Leve, fala de um amor gostoso, com tempo de qualidade, né? Uma delícia sonhar com tudo isso.
O dia está tenso. Muitas vozes, muitos sons. Muita gente esbarrando o dia todo; formigas, incansáveis em seu trabalho, mas que não reconhecem as outras operárias durante o expediente para alimentar a rainha.
Ela, por sua vez, está sentada em berço esplêndido. Alheia a tudo, só exige das suas operárias aquilo que ela está programada a exigir: trabalho árduo. E bota árduo nisso, viu... De sol a sol, carregando suprimentos para manter a colônia bem suprida - e a rainha bem alimentada para produzir mais operárias, que seguem seu destino, inabaláveis.
Parece comigo agora.
Estou sentado há mais de 30 minutos, olhando através da janela do escritório. Quero colocar os fones para ver se a música sai da minha cabeça um pouquinho, mas se meu chefe me pegar ouvindo música outra vez durante o expediente, não vai ser só um feedback que eu vou receber. Muito ingrato isso, já que até o Carlos sai pra fumar um cigarro escondido, volta exalando nicotina barata (ou nem nicotina, só barata mesmo), e o Jefferson não fala nada. Às vezes eu acho que a cobrança é só comigo.
Lembrei do e-mail que o cliente enviou na semana passada assim que pisei na sala, e estou com ele aberto há mais ou menos o dobro de tempo que olho o movimento frenético na rua. É quase hora do almoço, e os melhores restaurantes já estão mostrando o porquê de serem os melhores: o perfume paradisíaco das entradas, pratos principais, sobremesas, antepastos e afins consegue subir até o 28º andar do prédio. Começo a sonhar acordado com tudo isso, até que a recordação da marmita gelada, na copa da empresa, estilhaça o vidro do meu desejo reprimido e me faz acordar para o financiamento da casa que está atrasado.
Não acho justo ter que vender meu tíquete só pra me manter financeiramente saudável... mas é o que temos para hoje. Quem sabe, no quinto dia útil eu dou um pulo com os estagiários naquela lanchonete nova, a dois quarteirões da empresa...
Outro e-mail pipoca na tela do computador. É o cliente, cobrando um posicionamento do orçamento mandado na semana passada. Já é quinta-feira, e não consegui responder com a destreza e rapidez que eu tinha quando entrei aqui, há 10 anos. O mensageiro virtual da empresa começa a apitar, já que o Jefferson também foi copiado nesse e-mail. Não só ele, como o André, que é nosso diretor regional - que já comeu o rabo do meu chefe por conta desse cliente.
Não literalmente - eu acho...
Um sorriso brota, infantil, mas não dura muito: "a quinta série já ficou para trás há um bom tempo, Matheus... Não é hora de pensar essas coisas dos dois. Lembra do seu financiamento...". Mas uma quase-gargalhada começa a tomar corpo, feito uma criança entregue aos prazeres infantis de uma brincadeira qualquer no parque da cidade.
Parque que eu não vejo há mais de um ano, aliás. Preciso passar lá de novo, nem que seja na hora que sair do escritório hoje; ele passou a ficar aberto até por volta das 21h e, com sorte, saio daqui 19h... A faculdade vai ficar pra semana que vem, já que na sexta vai todo mundo beber no Koga.
"Eu amei te ver"...
A música volta. Mas agora, estou pensando no Koga. Tem tempo que eu vou lá, já que estou no meio do curso de Engenharia; mas não é a mesma coisa. Antes, eu até me divertia muito, apesar de vir de uma família que exigia muito dos seus filhos... Foi assim com a Carla, com o Thales e, agora, é comigo; mesmo eu, que tenho só 30 e poucos anos.
Fiquei rindo daqueles meninos de pouco mais de 18 anos que ficavam "vai tomar no Koga hoje?" por, pelo menos, uns 3 meses. Era impressionante a falta de maturidade deles. A mesma falta que a Carla identificava em seus alunos da graduação. Ela falava que o perfil dos alunos mudou muito de uns 20 anos pra cá, mas eu nunca tinha percebido isso até voltar pra faculdade. Era impressionante ver o quão infantl era aquele "bando de animais selvagens" (como o Thales chamava); fico imaginando os que estavam no Ensino Médio, então...
"Pelo amor de Deus, Matheus! Até agora você não respondeu aquele cliente? Tá caçando uma forma do André me dar uma comida de rabo de novo, cara? Dessa vez, quem vai rodar não vai ser eu, escuta bem!"
A porta quase voou atrás de mim quando eu percebi que o Jefferson tinha explodido na minha sala. Uma bomba atômica teria feito um barulho menor que esse. Todos os pensamentos se embaralharam essa hora, e a música que tocava na minha cabeça destoava do clima ameno que estava na minha ilusão. Quase vi os créditos de Transformers aparecendo, a inscrição Michael Bay brilhando, e Linkin Park jorrando seu refrão mais emblemático.
Desespero.
"Calma, Jefferson. Eu estou recolhendo tudo o que ele sinalizou pra ajustar o projeto, e isso-"
Ele estava vermelho. Roxo. Bonina. Magenta. Sei lá que cor já, mas não estava nem um pouco perto do tom de pele original dele...
"VOCÊ NÃO É PAGO PARA ISSO, MATHEUS! VOCÊ TEM QUE REPONDER RÁPIDO, PRINCIPALMENTE A ESSE CLIENTE!"
Nunca tinha visto ele assim. Devia ter acontecido alguma coisa naquele dia. Jamais que um projeto detalhado daqueles tinha que ser respondido rápido; tinha mais em jogo do que ele podia imaginar, mas era só o prazo que deveria ser cumprido e mais nada. Somente apresentar números.
Tudo se reduzia a isso, enfim. Eu que não queria enxergar essa mesquinhez porque, pensava eu, tinha um pouco de ética ainda naquele lugar. Ignorava que os sorrisos não eram para mim, mas eram sobre mim. Tomava meus remédios diariamente e não enxergava o óbvio: naquele lugar, só importava o quanto eu produzia, não o quanto eu valia. Vale o quanto pesa, era o que diziam. E meu peso não valia nada por ali...
Comecei a sentir o ar pesado. "Meu coração dispara..."; péssima hora pra música voltar. Mas não era a música.
Queria fugir dali. Meu terapeuta já tinha falado que eu chegaria nesse estado se não fizesse algo a mais por mim. Meus amigos falavam a mesma coisa. Mas eu negligenciava; afinal, preciso muito terminar de colocar os pagamentos em dia, os projetos em ordem, construir e manter minha família com a Júlia - que poderia até estar grávida, já que vivia enjoada nos últimos dias.
Era muita coisa rolando ao mesmo tempo.
As vozes estavam cada vez mais altas, interferindo nos meus pensamentos. Meu chefe continuava gritando, mais alto que as vozes. Uma guerra se travou na minha cabeça na mesma hora; todos os pensamentos misturados, uma massa disforme de desejos, traumas, datas, músicas, cheiros, medos, promessas, pedidos, contas... nem eu sabia mais o que estava acontecendo; só não estava sentindo mais nada.
O turbilhão estava cada vez mais rápido na minha cabeça. Sentia tudo, em todo lugar, ao mesmo tempo. Eu queria gritar, mas ninguém iria querer me ouvir mesmo... Já estava tonto com tanta coisa acontecendo na mesma hora, e não conseguia distinguir o que era real do que era fruto da minha cabeça fértil. As imagens começaram a se fechar, tudo foi ficando escuro, e dei tela azul.
Agora, tudo está bem melhor! As imagens não estão embaralhadas mais. As músicas, com pausas bem definidas. De vez em quando vejo Jefferson, Carlos, André... mas eles não me cobram mais nada, só sorriem e acenam para mim. É até engraçado vê-los aqui, já que estou ouvindo até passarinhos cantando ao longe. É estranhamente calmo aqui.
Não tenho computador mais. Substituí por um violão, que toco frequentemente sozinho aqui nessa sala com vista maravilhosa para o campo florido e ensolarado que se descortina na minha frente. Parece até ser artificial, já que não me lembro de anoitecer por aqui. Talvez eu tenha ajustado meu relógio biológico para dormir com o entardecer, coisa que eu queria há muito tempo fazer, mas não conseguia por causa do trabalho.
Larguei a faculdade também. Carla e Thales não gostaram, nem minha mãe. Quase não os vejo, desde então; mas eu me sinto mais bem realizado agora, por um motivo que eu ainda não compreendi.
Na verdade, nada faz sentido.
Mas é tudo muito lindo.
Menos quando eu sinto dor e tudo fica preto e branco, com uma luz forte na minha cara, e eu não consigo falar mais nada. Só ver uma janela fechada, com rostos que eu não reconheço, mas que vivem chorando por alguém que eu não conheço mais...
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